O basquete brasileiro perde seu maior embaixador. Oscar Schmidt, o eterno camisa 14 que carregou a seleção nas costas por quase duas décadas, morreu na manhã desta sexta-feira (17) em Santana do Parnaíba, região metropolitana de São Paulo. Ele tinha 68 anos.
O atleta passou mal em casa e foi socorrido pelo resgate, dando entrada no Hospital e Maternidade Municipal Santa Ana já em parada cardiorrespiratória. Não resistiu. A família, ainda sob forte comoção, divulgou nota agradecendo o carinho recebido e pediu privacidade neste momento. O velório será fechado apenas para parentes e amigos próximos.
Uma batalha silenciosa
Nos bastidores das quadras, Oscar travava sua partida mais difícil. Desde 2011, quando recebeu o diagnóstico de câncer no cérebro, o craque enfrentou cirurgias, tratamentos e recaídas com a mesma determinação que marcava seus arremessos de três pontos. Em 2022, chegou a anunciar que havia interrompido a quimioterapia por conta própria, mas depois esclareceu que estava curado.
Mesmo com toda a luta contra a doença, o atleta manteve o sorriso e a presença marcante que o consagraram. Nove dias antes de partir, foi homenageado pelo Comitê Olímpico do Brasil com sua entrada no Hall da Fama do COB. Não pôde comparecer ao Copacabana Palace, no Rio, por estar se recuperando de outra cirurgia. Quem recebeu a honraria foi seu filho, Felipe Schmidt.
“A gente sabe de tudo o que o meu pai se dedicou ao basquete, principalmente à seleção brasileira. Uma das suas maiores felicidades era defender o Brasil nas Olimpíadas”, emocionou-se Felipe na ocasião.
O menino que sonhava com o futebol
Nascido em Natal (RN) em 16 de fevereiro de 1958, Oscar Daniel Bezerra Schmidt nem sempre teve o basquete como primeira opção. O sonho inicial era ser jogador de futebol, mas a altura – que chegou a 2,04 metros – o empurrou para outra direção.
Em Brasília, deu os primeiros dribles no Colégio Salesiano, orientado pelo técnico Zezão. Aos 16 anos, mudou-se para São Paulo e vestiu a camisa do Palmeiras no time infantojuvenil. O resto é história.
As escolhas que definiram uma lenda
Oscar poderia ter sido um astro da NBA. Teve duas chances concretas. Em 1984, foi draftado pelo New Jersey Nets. Recusou. A regra da FIBA da época impedia que jogadores da liga americana atuassem por suas seleções nacionais, e Oscar não abria mão de defender o Brasil.
Oito anos depois, já com 34 anos, recebeu novos convites. Novamente, disse não. Preferiu continuar escrevendo sua história pelas quadras da Itália, Espanha e Brasil.
Essa decisão custou caro financeiramente, mas rendeu glórias eternas. Em 1987, liderou a seleção brasileira à conquista do ouro no Pan-Americano de Indianápolis, derrotando os Estados Unidos na final. Foi um dos momentos mais altos do basquete tupiniquim.
Números que nunca serão esquecidos
Cinco Olimpíadas. 1.093 pontos. Recorde absoluto. Oscar é o único atleta na história dos Jogos a ultrapassar a barreira dos mil pontos. Foi cestinha em três edições: Seul 1988 (338 pontos), Barcelona 1992 (198) e Atlanta 1996 (219).
Na carreira inteira, somou 49.737 pontos. Durante anos, foi o maior pontuador da história do basquete mundial, até ser superado por LeBron James em 2024.
Pela seleção brasileira, marcou 7.693 pontos – recorde que segue intacto. Conquistou três Sul-Americanos, duas Copas América e um Pan-Americano.
Reconhecimento mundial
Mesmo sem ter jogado oficialmente na NBA, Oscar foi introduzido no Hall da Fama da liga americana em 2013. Também integra o Hall da Fama da Fiba (Federação Internacional de Basquete). É o único brasileiro com essa honraria dupla.
Irmão de Tadeu, tio de Bruno
Fora das quadras, Oscar era irmão do apresentador Tadeu Schmidt e tio do também jornalista Bruno Schmidt. Tadeu já confessou que se inspirou no irmão mais velho, mas escolheu o jornalismo justamente para evitar comparações impossíveis.
“Meu irmão era um ídolo”, disse Tadeu em entrevista passada.
O legado que fica
Oscar Schmidt não foi apenas um grande jogador. Foi responsável por popularizar o basquete no Brasil, inspirando gerações inteiras a pegar numa bola laranja e sonhar alto. Sua camisa 14 virou símbolo de excelência, dedicação e amor à camisa amarela e verde.
Em nota, o presidente do COB, Marco Antonio La Porta, resumiu o sentimento de todo o esporte nacional: “Oscar representou valores que definem o espírito olímpico: dedicação, superação, respeito ao adversário. Seu legado permanece vivo nas quadras e corações que tocou ao longo de sua trajetória.”
Descanse em paz, Mão Santa. Sua história jamais será esquecida.



