O picão-preto (Bidens pilosa) é uma planta bastante conhecida no Brasil. Presente em quintais, terrenos, pastagens e áreas agrícolas, muitas vezes é vista apenas como uma erva espontânea. Entretanto, a espécie também possui uma longa história de utilização na medicina popular e tornou-se objeto de estudos científicos sobre seus compostos e possíveis propriedades biológicas.
O interesse científico é significativo a ponto de o Bidens pilosa integrar a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde (ReniSUS). O Ministério da Saúde publicou inclusive uma monografia específica reunindo informações botânicas, farmacológicas, toxicológicas e de segurança disponíveis sobre a espécie.
A presença nessa relação, porém, não significa que todos os benefícios atribuídos popularmente ao picão tenham eficácia clínica comprovada. O próprio Ministério da Saúde ressalta que a inclusão de uma planta nas monografias de interesse do SUS não representa, necessariamente, comprovação de eficácia e segurança para todos os usos.
O que é o picão-preto?
O picão-preto pertence à família Asteraceae e tem como nome científico Bidens pilosa. Trata-se de uma espécie encontrada em diversas regiões do mundo e muito comum no território brasileiro.
Uma de suas características mais conhecidas são as pequenas sementes alongadas e escuras que se prendem facilmente às roupas, aos pelos de animais e a outros materiais.
Apesar de ser frequentemente considerada uma planta invasora na agricultura, diferentes partes da espécie são utilizadas tradicionalmente como alimento ou preparação medicinal em várias regiões do mundo. Revisões científicas descrevem dezenas de usos tradicionais atribuídos ao Bidens pilosa.
Picão-preto serve para quê?
Na medicina popular, preparações feitas com picão são historicamente associadas a diversas finalidades. Entre elas estão problemas digestivos, inflamações e alterações metabólicas.
Isso não significa, entretanto, que a planta possa ser considerada tratamento comprovado para essas condições.
A pesquisa científica tem identificado diferentes substâncias no Bidens pilosa, incluindo flavonoides, poliacetilenos e outros compostos bioativos. A partir deles, pesquisadores investigam possíveis atividades antioxidantes, anti-inflamatórias, metabólicas e antimicrobianas.
Grande parte das evidências disponíveis ainda provém de experimentos laboratoriais ou estudos realizados em animais. Portanto, os resultados não podem ser automaticamente aplicados aos seres humanos.
1. Potencial antioxidante
Uma das áreas mais estudadas do picão-preto é sua possível atividade antioxidante.
Os antioxidantes são substâncias capazes de participar da proteção celular contra processos relacionados ao chamado estresse oxidativo. Pesquisas laboratoriais identificaram compostos presentes no Bidens pilosa com esse tipo de atividade.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 analisou justamente o perfil fitoquímico e o potencial antioxidante e anti-inflamatório da espécie. Os autores encontraram resultados promissores na literatura científica, embora a tradução dessas descobertas para aplicações clínicas ainda dependa de mais estudos.
Por isso, é mais correto dizer que o picão apresenta potencial antioxidante em pesquisas, e não que seu consumo seja comprovadamente capaz de prevenir ou tratar doenças.
2. Propriedades anti-inflamatórias são investigadas
Outro campo de interesse científico envolve os possíveis efeitos anti-inflamatórios de compostos presentes na planta.
Pesquisas experimentais têm observado mecanismos capazes de interferir em processos associados à inflamação. A revisão sistemática publicada em 2025 encontrou evidências experimentais que sustentam o interesse científico nessa área.
Ainda assim, faltam ensaios clínicos robustos que permitam estabelecer doses, indicações e resultados terapêuticos seguros para pessoas.
Consequentemente, o picão não deve substituir medicamentos anti-inflamatórios ou tratamentos prescritos por profissionais de saúde.
3. Picão-preto e diabetes
Um dos temas que mais despertam interesse é a relação entre o Bidens pilosa e a glicose sanguínea.
A espécie possui histórico de utilização tradicional relacionado ao diabetes em diferentes regiões do mundo. Estudos experimentais também investigaram substâncias presentes no picão e seus possíveis efeitos sobre o metabolismo da glicose.
Porém, a existência desses estudos não significa que o chá de picão seja um tratamento comprovado para diabetes.
Revisões da literatura destacam a necessidade de estudos clínicos mais rigorosos antes que a planta possa ser recomendada como tratamento médico.
Quem possui diabetes e utiliza medicamentos também deve ter atenção especial, já que combinar plantas com potencial efeito metabólico e medicamentos pode produzir respostas imprevisíveis.
4. Possível ação antimicrobiana
Pesquisas laboratoriais também têm investigado extratos do Bidens pilosa contra diferentes microrganismos.
Esse tipo de pesquisa é importante para descobrir novas moléculas ou compostos com potencial farmacológico.
Entretanto, obter atividade contra microrganismos em laboratório é muito diferente de demonstrar que um chá ou extrato consegue tratar uma infecção em seres humanos.
Assim, o picão-preto não deve substituir antibióticos, antifúngicos ou qualquer medicamento prescrito para infecções.
5. Picão e o fígado: o que realmente se sabe?
No Brasil, uma das associações populares mais conhecidas é entre o chá de picão e problemas relacionados ao fígado ou à icterícia.
Há estudos experimentais sobre propriedades biológicas da planta que ajudam a explicar por que ela continua despertando interesse científico.
Porém, é importante diferenciar uso tradicional de eficácia médica comprovada.
Não há base suficiente para afirmar que beber chá de picão “limpa”, “desintoxica” ou cura doenças do fígado.
Sintomas como pele amarelada, olhos amarelados, urina escura ou dor abdominal podem estar relacionados a problemas que precisam de avaliação médica.
6. Picão-preto pode ajudar na digestão?
Preparações da planta aparecem na medicina tradicional em contextos relacionados ao sistema digestivo.
A literatura científica registra diversos usos etnomedicinais do Bidens pilosa, incluindo problemas gastrointestinais.
Entretanto, novamente existe diferença entre um uso tradicional e uma indicação comprovada por estudos clínicos.
Problemas digestivos persistentes, principalmente quando acompanhados de dor intensa, vômitos, sangue nas fezes ou perda inexplicada de peso, precisam de investigação profissional.
Chá de picão-preto
Uma das formas tradicionais mais conhecidas de utilização da planta é por meio de infusão ou outras preparações aquosas.
Contudo, existe uma dificuldade importante: não há uma dose universal cientificamente estabelecida para o consumo caseiro de picão com finalidade terapêutica.
A concentração dos compostos pode variar de acordo com:
- parte da planta utilizada;
- espécie e variedade;
- local de cultivo;
- época da colheita;
- método de secagem;
- quantidade utilizada;
- tempo de preparo;
- armazenamento.
Por isso, receitas encontradas na internet não devem ser automaticamente consideradas seguras ou clinicamente eficazes.
Picão-preto é seguro?
Esse é um ponto particularmente importante.
Embora a planta seja utilizada tradicionalmente e pesquisas em animais tenham encontrado tolerabilidade em determinadas condições experimentais, as informações sobre toxicidade sistêmica em humanos continuam limitadas.
Uma revisão científica sobre o Bidens pilosa destacou que estudos toxicológicos completos em seres humanos ainda são insuficientes e que também faltam dados sólidos sobre possíveis interações com medicamentos.
Experimentos realizados em animais não podem ser usados para estabelecer uma dose segura para pessoas.
Quem deve ter cuidado com o picão?
Devido à ausência de dados clínicos suficientes para diversas situações, o consumo medicinal exige cautela principalmente para pessoas que:
- utilizam medicamentos regularmente;
- possuem doenças crônicas;
- fazem tratamento para diabetes ou alterações da glicemia;
- estão grávidas ou amamentando;
- pretendem oferecer preparações da planta a crianças;
- apresentam doenças hepáticas ou renais;
- possuem histórico de alergia a plantas.
Nesses casos, o aconselhamento de um médico, farmacêutico ou outro profissional habilitado é especialmente importante.
Picão pode interagir com medicamentos?
Esse ainda é um dos pontos pouco esclarecidos pela ciência.
Revisões científicas apontam que as possíveis interações entre Bidens pilosa e medicamentos ainda precisam ser estudadas adequadamente em humanos.
Essa ausência de dados não significa que as interações não existam.
Pelo contrário: quando uma planta contém substâncias biologicamente ativas, existe a possibilidade de interferência na ação de medicamentos ou no metabolismo do organismo.
Natural não significa automaticamente seguro
Um erro comum envolvendo plantas medicinais é acreditar que, por serem naturais, não apresentam riscos.
Medicamentos também podem ter origem em substâncias encontradas na natureza. O que determina segurança não é apenas a origem, mas fatores como dose, concentração, forma de uso, condição clínica e interação com outras substâncias.
O próprio Ministério da Saúde alerta que as plantas incluídas nas monografias de interesse do SUS não possuem, necessariamente, eficácia e segurança comprovadas para todos os usos atribuídos a elas.
O que a ciência diz atualmente sobre o picão?
O cenário científico pode ser resumido da seguinte maneira: o Bidens pilosa é uma planta farmacologicamente interessante, rica em diferentes compostos e com resultados experimentais que justificam novas pesquisas.
Há estudos investigando atividades antioxidantes, anti-inflamatórias e relacionadas ao metabolismo, entre outras.
Ao mesmo tempo, pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos clínicos rigorosos para transformar essas descobertas em recomendações médicas bem estabelecidas.
Essa diferença é essencial.
“Possui atividade em laboratório” não é sinônimo de “trata uma doença em pessoas”.
Picão-preto faz parte das plantas de interesse do SUS
A inclusão do picão-preto na ReniSUS é um dado relevante.
O Ministério da Saúde mantém a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, composta por espécies consideradas relevantes para pesquisa e desenvolvimento na área de plantas medicinais e fitoterápicos.
O Bidens pilosa está entre essas espécies e possui uma monografia específica elaborada pelo Ministério da Saúde.
Esses documentos procuram sistematizar informações científicas sobre identificação botânica, composição, segurança, eficácia e outros aspectos.
A presença na ReniSUS, portanto, significa interesse para pesquisa e avaliação, e não que o SUS recomende automaticamente o chá da planta para tratar doenças.
Afinal, picão-preto faz bem?
A resposta mais responsável é: a planta possui compostos e propriedades biológicas promissoras, mas muitos dos benefícios divulgados popularmente ainda não estão comprovados em seres humanos.
O Bidens pilosa apresenta uma longa história de uso tradicional e uma quantidade relevante de pesquisas experimentais. Isso torna a espécie interessante para a ciência e para o desenvolvimento futuro de fitoterápicos.
Mas ainda são necessários estudos para determinar com maior segurança:
- quais benefícios realmente ocorrem em humanos;
- qual seria a dose adequada;
- quais preparações funcionariam;
- durante quanto tempo poderiam ser utilizadas;
- quais seriam os efeitos adversos;
- quais medicamentos poderiam interagir com a planta.
Até que essas respostas estejam mais bem estabelecidas, o uso medicinal do picão deve ser encarado com cautela e não como substituto de diagnóstico ou tratamento médico.
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